diário da persistência

o ressoar de cada segundo transpõem-me para o mundo dos meus sonhos

Tuesday, July 06, 2004

Inocência

Uma lágrima rola pelo teu rosto. "Calma, está tudo bem." "Não, não está". Está tudo mal. Rasgas a pele e gritas a alma, e não está tudo bem... As tuas feições de menina inrompem para uma expressão de horror como uma tempestade. Exteriorizas a dor, e os teus olhos vermelhos fecham-se docemente, embalados no teu choro. Cerras os punhos e encolhes-te, fechas-te, fechas o teu mundo. Mal sabes a dor que dentro de mim corre por estares assim. Engulo em seco, não quero chorar. Abafas agora o som e apenas os teus soluços são perceptiveis, ao mesmo tempo que me preparo para o escorrer de um fio salgado, até à boca. Choro mais e muito mais que tu. Cá dentro. Vejo um véu que te cobre, pontos luminosos em teu redor. Chamas e labaredas cercam-me e queimam-me. Muito mais que o fogo ou a luz cravam-me o peito, derretem-me o coração... Se é que antes o tinha. Destruí hoje a coisa mais pura que conhecia, que possuia... que me restava. Tinha-te comigo e depois do inferno senti a expriência de um ser cruél. Magoei-te. Senti algo como nunca ninguem deva antes ter sentido, como uma pedra, um vulto desconhecido, um cubo de gelo - nem elas merecem tal comparação. Com uma lança furei-te o peito vezes e vezes sem fim, onde os teus olhos, a tua expressão de tristeza implorava "Por favor, pára". E sem forças, tu criatura inocente e perfeita, traída e enganada, deitada, esgotada no chão duro, as tuas lágrimas a correrem como um mar majestoso mas indifrente que tem de seguir o seu caminho; tapas a cara, nem uma palavra me dás. Isolas-te e escondes-te do mundo; 'queres desaparecer' leio na imagem que vejo. Agarro-te, empurro-te, "Não sejas assim". O teu silêncio transporta-me às trevas. "Chora, vá! Diz alguma coisa!". Estás imovel, não te mexes. O lençól vermelho que te cobre parece estender-se para muito longe daqui, parece-me infinito. Não te ouço a respiração...... A tempestade parou. E trovões e gritos estridentes, fogos, mares, explosões e sangue se acendem em mim, as mãos a tremerem, e agarro-te, seguro-te com força a cabeça, enquanto que o teu corpo pesado é agora inerte. A cabeça caída sobre o meu braço... Gélo por completo, não estás ali. Limpo-te uma lágrima do rosto e abraço-me a ti. Grito para o céu a minha revolta, destrúo o mundo com a minha dor. Com a melodia que te preenxia as tardes da tua infância embalo-te, embalo o teu corpo. Olho-te na escuridão. Tirei-te a luz, e o Sol, e a vida.


Para a Mariana.

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